
Introdução e Enquadramento
O MycoAcorn - Bioprocessos com Micélio e Bolota para o Desenvolvimento de Ingredientes e Alimentos Funcionais Inovadores é um projeto de investigação, desenvolvimento e inovação dedicado à valorização de recursos endógenos do Interior de Portugal.
O projeto combina a bolota de azinheira com micélio obtido a partir de cogumelos silvestres do Parque Natural de Montesinho, recorrendo à biotecnologia e à ciência dos alimentos para desenvolver ingredientes com características nutricionais, funcionais e tecnológicas melhoradas. Através do cultivo controlado de micélio em biorreator e da fermentação da bolota, o MycoAcorn pretende transformar recursos biológicos ainda subaproveitados em ingredientes de valor acrescentado e novos alimentos funcionais, promovendo a bioeconomia circular, a transferência de conhecimento e a competitividade do setor agroalimentar regional.
Contexto e Problema Identificado
Trás-os-Montes possui uma elevada riqueza agroflorestal e uma biodiversidade singular, mas enfrenta desafios estruturais relacionados com a baixa densidade populacional, o envelhecimento demográfico, a reduzida escala industrial e a dificuldade de criação de emprego qualificado. Entre os recursos com potencial de valorização encontram-se a bolota de azinheira e os cogumelos silvestres. Apesar da sua identidade territorial e das suas propriedades nutricionais, estes recursos continuam pouco integrados em cadeias alimentares de elevado valor.
A utilização da bolota como ingrediente alimentar é condicionada pela presença de taninos, responsáveis pela adstringência, por fatores antinutricionais e por algumas limitações tecnológicas. Paralelamente, a utilização industrial de cogumelos silvestres é afetada pela sazonalidade, variabilidade e dificuldade de obtenção de ingredientes com composição consistente e reprodutível. O MycoAcorn procura ultrapassar estas limitações através de processos biotecnológicos controlados, capazes de produzir biomassa micelial padronizada e de melhorar as características nutricionais e tecnofuncionais da bolota.
Objetivos
O MycoAcorn tem como principal objetivo desenvolver uma abordagem biotecnológica integrada e circular para transformar micélio e bolota em ingredientes inovadores e novos alimentos funcionais. O projeto pretende:
- Selecionar micélios de cogumelos silvestres com elevado potencial alimentar e funcional;
- Desenvolver e otimizar o cultivo submerso de micélio em biorreator;
- Produzir biomassa micelial rica em proteína, fibra e β-glucanas;
- Desenvolver pré-tratamentos térmicos e enzimáticos para o fracionamento da bolota;
- Obter um extrato aquoso de bolota rico em açúcares, destinado à utilização como componente do meio de cultura do micélio;
- Utilizar a fração sólida da bolota em processos de fermentação em estado sólido;
- Reduzir o teor de taninos e outros fatores antinutricionais;
- Melhorar o perfil nutricional, a digestibilidade e as propriedades tecnofuncionais dos ingredientes;
- Avaliar a segurança, bioatividade e potencial funcional dos ingredientes desenvolvidos;
- Incorporar os ingredientes em protótipos alimentares;
- Avaliar a qualidade sensorial, tecnológica e microbiológica dos produtos;
- Criar um portefólio de ingredientes e alimentos com potencial de transferência para a indústria.
Desenvolvimento Tecnológico e Inovação
O MycoAcorn integra duas tecnologias biotecnológicas complementares: o cultivo submerso de micélio em biorreator e a fermentação da bolota em estado sólido. Na primeira vertente, serão selecionadas estirpes de cogumelos do Parque Natural de Montesinho e otimizadas as condições para o seu crescimento em biorreator. Serão estudados parâmetros como a composição do meio de cultura, o rácio entre carbono e azoto, o pH, a temperatura, a agitação, o arejamento e a disponibilidade de oxigénio.
O objetivo é produzir biomassa micelial de forma controlada, reprodutível e independente da sazonalidade, com características adequadas à utilização como ingrediente alimentar. A biomassa será caracterizada quanto ao teor de proteína, fibra, β-glucanas, compostos fenólicos e propriedades tecnofuncionais, como solubilidade, emulsificação, gelificação e comportamento reológico. Na segunda vertente, a bolota será submetida a pré-tratamentos térmicos e enzimáticos. Estes processos permitirão obter duas frações complementares:
- Um extrato aquoso, ou “licor”, rico em açúcares, que será avaliado como componente de baixo custo do meio utilizado no cultivo do micélio;
- Uma fração sólida, que será fermentada com micélio selecionado.
A fermentação será otimizada através do controlo da humidade, granulometria, temperatura, tempo, arejamento e suplementação. Pretende-se obter farinha de bolota fermentada com menor teor de taninos, maior valor nutricional e melhores propriedades tecnológicas. Esta utilização articulada das diferentes frações da bolota procura assegurar um processo circular, reduzindo desperdícios e a dependência de nutrientes comerciais.
Avaliação Funcional e Desenvolvimento de Alimentos
Os ingredientes obtidos serão submetidos a uma caracterização nutricional, bioquímica, tecnológica e funcional. Após digestão gastrointestinal simulada, serão avaliadas a citocompatibilidade e potenciais propriedades:
- Antioxidantes;
- Hipoglicemiantes;
- Anti-inflamatórias;
- Imunoestimuladoras;
- Prebióticas e moduladoras da microbiota intestinal.
Os ingredientes mais promissores serão posteriormente incorporados em farinhas e protótipos alimentares, incluindo produtos de panificação, snacks, produtos extrudidos e análogos proteicos. As formulações serão estudadas quanto à textura, reologia, cor, estabilidade microbiológica, desempenho tecnológico e aceitação sensorial. Os resultados serão organizados num portefólio de produtos inovadores, orientado para a demonstração e transferência para o setor agroalimentar.
Impacto e Contributos
O MycoAcorn pretende criar novas cadeias de valor regionais baseadas na bolota, na biodiversidade fúngica e na biotecnologia alimentar. Ao transformar matérias-primas subaproveitadas em ingredientes diferenciados, o projeto poderá aumentar o valor económico dos sistemas agroflorestais e criar novas oportunidades para produtores, recolectores, empresas de biotecnologia e indústrias agroalimentares.
A utilização integral da bolota e a reutilização das suas diferentes frações contribuem para uma abordagem de economia circular, permitindo reduzir desperdícios, melhorar a eficiência dos processos e diminuir a utilização de componentes comerciais nos meios de cultura. Entre os principais impactos esperados encontram-se:
- Valorização sustentável da bolota de azinheira e dos cogumelos silvestres;
- Criação de ingredientes de elevado valor acrescentado;
- Desenvolvimento de processos biotecnológicos reproduzíveis e escaláveis;
- Criação de novas oportunidades de mercado para empresas regionais;
- Transferência de conhecimento para PMEs do setor agroalimentar e biotecnológico;
- Reforço da cooperação entre investigação, empresas e produtores;
- Criação de condições para emprego científico e técnico qualificado;
- Reforço da identidade territorial e da competitividade de Trás-os-Montes;
- Promoção da gestão sustentável dos recursos agroflorestais;
- Desenvolvimento de alimentos com perfil nutricional melhorado e potencial benefício para a saúde.
O projeto encontra-se alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionados com agricultura sustentável, saúde e bem-estar, trabalho digno, inovação industrial e produção e consumo responsáveis.
Informação do Projeto
Programa: Programa Promove - Projetos I&D Mobilizadores 2026
Entidade Financiadora: Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia - FCT
Código da Candidatura: PD26-00001
Título do Projeto: MYCOACORN - Bioprocessos com Micélio e Bolota para o Desenvolvimento de Ingredientes e Alimentos Funcionais Inovadores
Investimento Total: 312 500,30 €
Financiamento da Fundação “la Caixa”: 250 000,00 €
Cofinanciamento do Consórcio: 62 500,30 €
Taxa de Financiamento: 80%
Duração: 36 meses
Data de Início: 01/09/2026
Data de Conclusão: 01/09/2029
Coordenação: CEB - Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho
Consórcio: CIMO - Instituto Politécnico de Bragança, Deifil Technology e LandraTech
Estado: Em execução

